Não tenho mais prazer em ver um jogo pela TV, falta coragem aos treinadores

Reprodução/TV Globo

De Helvídio Mattos, no Ultrajano

Dia desses conversei ao telefone por longo tempo com meu amigo/irmão Roberto Salim. Falamos de uma paixão comum, o futebol.

Bob Salino, como costumo chamá-lo, tem andado frustrado, decepcionado e puto da vida com os péssimos espetáculos apresentados pelos grandes times brasileiros.

Também eu me sinto assim. Não tenho mais prazer em ver um jogo pela TV, mesmo que seja do querido e glorioso alvinegro praiano.

Para mim, o esquema do Sampaoli só funcionará quando o argentino tiver em mãos jogadores de qualidade com a bola nos pés.

Salim concorda com isso e ataca a covardia dos técnicos que temos. Diz que não adianta marcar um gol no começo da partida e em seguida recuar o time para garantir o resultado.

Ou então trocar 600 e tantos passes e não conseguir entrar na área do adversário. Pior ainda, para o Salim, é ver que por muitas vezes a cobrança de um escanteio termina nos pés do goleiro do time que estava no ataque.

Por isso, nosso “Salada” (outro apelido do Salim) passou a assistir a jogos do XV de Piracicaba, da Inter de Limeira, do Santo André e até das categorias de base.

Tudo porque essa turma tem mostrado aquilo que sumiu do vocabulário dos treinadores dos clubes chamados de elite: CORAGEM.

Ouvir essa palavra dita pelo Salim no outro lado da linha foi o que bastou para botar na conversa o mais eletrizante jogo de futebol deste Brasileirão (duvido que terá outro igual).

Sintonizei o canal que transmitia Grêmio x Fluminense com 20 e poucos minutos de partida e com o Tricolor gaúcho já na frente por 3 x 0. Claro que tinha então a certeza de que a noite de domingo iria acabar muito mal para o Tricolor carioca.

Todo mundo sabe o que aconteceu. O Fluminense virou o jogo para 4 x 3, o Grêmio empatou e o Flu, no finalzinho, fez o 5 x 4. Nove gols, fora as chances perdidas e as defesas salvadoras dos goleiros.

Os dois times foram corajosos, como o foram Santos e Palmeiras no distante 6 de março de 1958.

O jogo valia pela terceira rodada do Torneio Rio-São Paulo. O Santos, treinado por Luiz Alonso, o Lula, já era um time avassalador. Oswaldo Brandão era o técnico do Palmeiras. Para sentir que jogo foi esse, vamos à marcha da contagem.

Diante de 43.068 torcedores que foram ao Estádio do Pacaembu, o ponta-esquerda Urias fez 1 x 0 Palmeiras aos 20 minutos. Um minuto depois, Pelé empatou. Aos 25 Pagão botou o Santos na frente. No minuto seguinte, o centroavante Nardo deixou tudo igual.

Daí pra frente, o Santos deslanchou. Aos 32 minutos, o ponta-direita Dorval fez 3 x 2. Pepe marcou o quarto gol santista aos 38 e Pagão fechou a conta do primeiro tempo aos 44 minutos.

Tomar cinco gols em 45 minutos foi muito para Edgard, o goleiro do Palmeiras. No vestiário, pediu para não voltar para o jogo. No lugar dele entrou o reserva Victor.

Depois de levar uma bronca de Brandão, que exigiu que tivessem vergonha na cara, os jogadores do Palmeiras tiveram a coragem de ir para o ataque até virar o marcador em 34 minutos de jogo.

O ponta-direita Paulinho fez 3 x 5. Três minutos depois, Mazzola fez 4 x 5 e empatou o jogo aos 28’. Urias, que tinha aberto a contagem, marcou o sexto gol palmeirense faltando 11 minutos para a partida acabar.

Mas não acabou assim. José “Pepe” Macia, ponta-esquerda do esquadrão que ali se formava para conquistar o mundo, definiu que esse “foi o jogo mais emocionante que o futebol brasileiro já apresentou”.

Tem toda razão. Foram dele os dois últimos gols da partida. Aos 38 empatou com um gol de cabeça. Aos 43 marcou o 13º gol da partida que entrou para a história e, dizem, fulminou cinco torcedores de coração frágil.

Enquanto escrevo, me vem à cabeça a sentença do profexô Luxemburgo: “O medo de perder tira a vontade de ganhar”.

Por isso, é preciso coragem para vencer o medo. Como teve o Liverpool para meter quatro gols no Barcelona e não tomar nenhum. Um resultado impensável depois da derrota por 3 x 0 na primeira partida da semifinal da Liga dos Campeões da Europa.

“Que jogo é esse?”, se perguntam nove entre 10 narradores esportivos da televisão brasileira. A resposta está na ponta da língua: esse jogo é aquele que vai tirar nosso futebol do limbo. É o jogo dos jogadores e técnicos sem medo e que alegra nossa alma. É o jogo da coragem.

Acho que Roberto Salim vai concordar com isso.

O que você achou? jr.malia@bol.com.br

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